Eleições 2022: o mercado financeiro está com Lula ou Bolsonaro?

A entidade conhecida como mercado financeiro manifestou de forma visível seu incômodo com a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, nas intenções de voto para a Presidência da República: quase 20 pontos percentuais à frente de seu principal oponente, o candidato do governo, com Ciro Gomes brigando pelo terceiro lugar. Esse favoritismo, e a incapacidade de o discurso governista mobilizar o eleitorado, fez o dólar subir e a bolsa desabar. A tensão só começou a se dissipar com a publicação da Carta ao Povo Brasileiro, em junho de 2002, na qual o PT prometeu formalmente que respeitaria os contratos e não faria intervenções na economia, que preservaria o superávit fiscal e o equilíbrio das contas públicas.

Sim, apesar da semelhança com janeiro de 2022, essa breve descrição recorda o que ocorreu há quase 20 anos. Em 2002, disputando sua quarta eleição presidencial, Lula enfrentou José Serra, candidato do PSDB, que visava suceder o extremamente popular Fernando Henrique Cardoso. O início de 2022 apresenta vários pontos em comum com a situação de duas décadas atrás. O mais importante deles é a pergunta do mercado financeiro: se Lula vencer a eleição, ele será um presidente conciliador e responsável em termos fiscais, ou vai nortear seu governo pelo populismo econômico, como vem ocorrendo nos últimos meses do governo de Jair Bolsonaro? Ou, no jargão do mercado: se Lula ganhar, como ficam os preços dos ativos brasileiros?

Pragmatismo

Os profissionais do mercado financeiro são, antes de mais nada, pragmáticos. Quatro anos atrás, quando as pesquisas já confirmavam o favoritismo de Bolsonaro, a indicação do economista Paulo Guedes para o Ministério da Economia definiu o jogo. A chegada de Guedes foi a realização de um desejo de longa data. Após 16 anos de governos com orientação à esquerda, o liberal Guedes prometia implementar o sonhado “choque de capitalismo” pelo qual as lideranças do empresariado e do sistema financeiro tanto ansiavam. Algumas coisas avançaram. Entre elas a reforma da Previdência, a independência do Banco Central (BC) e vendas de algumas estatais. Porém, a palavra mais ouvida é decepção. A convicção é que o governo ficou devendo. “Apesar de reconhecer os esforços do ministro Paulo Guedes para defender o equilíbrio das contas públicas, o mercado se decepcionou com a falta de aderência do governo como um todo ao receituário liberal”, disse o economista chefe do Banco Master, Paulo Gala.

Pior do que isso, desde setembro do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro abriu espaço — incluindo cargos e verbas ­— para políticos do Centrão sustentarem o governo. E as críticas, que até pouco tempo atrás eram privadas, tornaram-se públicas. O exemplo mais recente veio da Verde Asset Management, comandada por Luis Stuhlberger, um dos gestores de recursos mais respeitados do País. Todos os meses, a Verde envia uma carta aos investidores. A edição de janeiro, intitulada Terraplanismo Econômico e assinada pelo economista-chefe da Verde, Daniel Leichsenring, não economizou nas críticas. “Em praticamente todas as áreas de atuação [do governo], o que se viu foi um desastre. Da ação deliberada de atrasar a vacina e jogar insistentemente contra, com o suprassumo das fake news antivax, à política econômica. No entanto, ao invés de rever, o governo acena com a aceleração dos erros”, escreveu o economista.

A carta não poupou nem a equipe econômica. O Ministério da Economia, escreveu Leichsenring, colaborou com o Congresso e com o presidente da República para destruir o Teto de Gastos e comprometer a credibilidade da Lei de Responsabilidade Fiscal. O aumento de gastos com o fundo eleitoral e as emendas parlamentares “sob a esfarrapada desculpa de atender aos mais pobres com o Auxílio Brasil”, nada mais são do que tentativas de garantir apoio parlamentar. A proposta de desonerar os combustíveis coloca Bolsonaro na pior posição possível do ponto de vista do mercado: em uma comparação com a ex-presidente Dilma Rousseff. “Quem poderia imaginar que o governo eleito em 2018 (…) iria começar o último ano de seu mandato recorrendo às piores práticas do governo petista, de um populismo eleitoreiro barato, totalmente irresponsável? (…) “No final, [os governos Dilma e Bolsonaro] são irmãos gêmeos, separados no nascimento.”

Preços

À medida que a eleição se aproxima e as pesquisas indicam um favoritismo sólido de Lula, os profissionais do mercado procuram fazer o que fazem todos os dias: traçar cenários e definir qual será o impacto de uma vitória do pré-candidato petista sobre os preços dos ativos. O início do ano está sendo exuberante, com a bolsa subindo cerca de 9% e o dólar caindo 7% desde o fim de 2021. A explicação é simples: há estrangeiros comprando ativos brasileiros. Para fazer isso, eles trazem dólares para o País, o que faz o real se apreciar em relação à moeda americana. Segundo o sócio fundador da gestora SPX, Rogério Xavier, a entrada dos investidores estrangeiros também pode estar associada às sinalizações de Lula em direção ao centro. Por exemplo, sugerindo o tucano Geraldo Alckmin para a vice-presidência. “O estrangeiro tem uma perspectiva de melhora para o Brasil com o Lula assumindo o poder”, disse Xavier durante um evento do banco Credit Suisse, no início de fevereiro. Mas ele foi cauteloso em seu otimismo. “Não acredito que isso [a melhora da economia] vá acontecer porque o orçamento é muito apertado e, para implementar a agenda petista, seria necessário aumentar impostos”, afirmou.

Segundo Gala, do Banco Master, o mercado tem mais medo de um Bolsonaro reeleito com pouca força política, nas mãos do Centrão e sem disciplina fiscal, do que de um Lula com regras fiscais claras. Ou seja, um Lula mais parecido com o presidente fiscalmente responsável de 2003 do que com o gastador de 2010 — ou o radical dos anos 1980. Quem conhece o ofício acredita mais na primeira hipótese. “Há muita animosidade contra Lula entre os profissionais mais vocais do mercado, como os operadores”, disse o experiente economista Luiz Eduardo Assis, que já liderou alguns dos maiores bancos internacionais no Brasil. “Porém, quando se sobe no organograma das organizações financeiras, essa animosidade desaparece.”

A explicação, diz ele, é simples: entre 2003 e 2010, empresas e bancos ganharam muito dinheiro convivendo com um governo extremamente afável para o empresariado. “Lula colocou Henrique Meirelles, um banqueiro internacional, no comando do BC, colocou um empresário como Luiz Fernando Furlan no Desenvolvimento e uma liderança setorial como Roberto Rodrigues na Agricultura”, disse. “Quem teme Lula se esquece que sua política econômica nunca foi petista.”

Fonte: Acesse Política

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